Quantos truques um mágico pode ter?

Quantos truques um mágico pode ter?

Nem Maradona, nem Platini, nem Zico: relembre a história de Jorge "Mágico" González, o mais habilidoso jogador da década de 80.

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Ele não conquistou títulos importantes. Não jogou por grandes clubes. Não defendeu uma grande seleção. Mas, mesmo assim, é um dos mais cultuados jogadores da história do futebol. Jorge “Magico” González é o símbolo máximo do “poderia ter sido”.

O salvadorenho era sem dúvida o mais talentoso atleta de sua geração. Nada de Maradona, Zico ou Platini: o Mágico era o jogador mais imprevisível possível. Assisti-lo em um estádio era uma experiência única, jamais vista.

Seu repertório descomunal de dribles confundia todo e qualquer marcador. Mudanças de direção, elástico infalível, toques de calcanhar, jogo de pernas. Chutes fortes, colocados, por cobertura. O repertório infinito de truques lhe rendeu o apelido de “Mágico” na Espanha.

Até mesmo Maradona se rendeu ao talento de González. Para o craque argentino, o salvadorenho é um dos maiores que já viu jogar. Quando os dois se enfrentavam, acontecia um momento raro no campo: Diego se via ofuscado por outro jogador.

A trajetória do Mágico se inicia em El Salvador, em 1975, no ANTEL. De imediato, seu extraordinário talento foi notado, e o atacante foi se transferindo para equipes maiores. Primeiro, Independiente Nacional. Depois, FAS.

Naquela equipe, González fez história. Durante a primeira passagem, foi três vezes campeão nacional da primeira divisão e levou a Liga dos Campeões da Concacaf, em 1979. Não demorou a se tornar a grande estrela do futebol de El Salvador.

Foi fundamental na classificação da seleção para a Copa do Mundo de 1982. No torneio, o modesto time não fez frente a Bélgica, Hungria e Argentina – na primeira vez em que Diego e Jorge se enfrentaram – perdendo todos os jogos. Incluindo um humilhante 10 a 1 para os húngaros.

Apesar disso, a competição foi o suficiente para González mostrar seu futebol ao mundo. E aos espanhóis, principalmente. Logo após o Mundial, passou a ser sondado por equipes do país. Mais especificamente Cádiz e Atlético de Madri. Também veio proposta do Paris Saint-Germain.

Os colchoneros eram a opção mais óbvia. Equipe tradicional, candidata a títulos, de primeira divisão. Mas o Mágico não queria o caminho mais fácil. E nem se mudar para a França, que, para ele, era “muito longe”. Acabou optando pelo Cádiz, que disputaria a segunda divisão espanhola.

Foi a estrela da II Liga, sendo o grande líder da equipe na campanha do acesso. Mas seus problemas extracampo começaram a ficar aparentes para os torcedores espanhóis. Mágico era genial nos gramados, mas não tinha comprometimento algum fora deles.

Atrasado nos treinos e nos jogos, embriagado na véspera. González não se preocupava com seu físico ou com sua imagem. Um misto de Adriano com Ronaldinho nos anos 80. Conseguia relevar, pois mantinha bom desempenho em campo. E os tempos eram outros: não havia vigilância de celulares e redes sociais.

Chegou para a semifinal do tradicional Troféu Ramon de Carranza diante do Barcelona com bastante atraso. Acabou punido pelo treinador, que o deixou no banco de reservas. E o Cádiz começou perdendo por 3 a 0.

Ali, a história começaria a ser escrita. O Mágico foi chamado e o espetáculo começou. Entrou em campo, marcou dois gols e deu duas belas assistências, fora o imenso repertório de clubes mostrado no gramado. O Cádiz se classificou para a final, vencendo por 4 a 3.

Naquela temporada, contudo, a equipe não teve um bom desempenho e não conseguiu se manter na elite do futebol espanhol. Foi rebaixada. E vários clubes passaram a seguir de perto a situação de González.

Mágico González: o maior jogador da história de El Salvador (Foto: Reprodução/Marca)
Mágico González: o maior jogador da história de El Salvador (Foto: Reprodução/Marca)

Dentre eles, o Barcelona. A equipe negociava Maradona para o Napoli e desejava o salvadorenho, mas tinha um pé atrás devido à agitada vida extracampo do craque. Como período de testes, levou González para uma pré-temporada nos Estados Unidos.

Os entreveros começaram logo no embarque. O atacante não se apresentou e funcionários do clube foram busca-lo no hotel. O voo era às cinco da manhã, e o Mágico sequer havia dormido ainda. Acabou embarcando.

A gota d’água veio logo depois. Em um hotel da Califórnia, os jogadores estavam concentrados à noite quando o alarme de incêndio foi ativado. Todos os atletas desceram, menos González. Descobriu-se depois que o Mágico estava com uma mulher no quarto e por isso evitou sair.

O Barcelona não quis mais o Mágico. E o Mágico não quis o Barcelona. González ainda poderia ter ido para Fiorentina e PSG, mas acabou optando pelo Valladolid. Lá, seus descompromissos provocaram discussões com o presidente do clube, e González foi obrigado a retornar ao Cádiz. Jogou mais cinco anos por lá, entre altos e baixos.

González não era um Mágico de grandes turnês, de grande público. Era como um simples artista de rua: mostrava seu talento para poucos. Impressionava no farol, e para ele estava ótimo. Por outro lado, contraditório como qualquer outro gênio, levava a vida pessoal como a de um ilusionista muito famoso.

Pode não ter chegado até onde poderia, mas certamente chegou onde quis. E, ainda assim, virou lenda. Um truque de mestre.

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